“Ao futuro, com R$ 13,32 por trimestre” por Carlos Lyra

11 jun

Texto de Carlos Lyra publicado originalmente no jornal O Globo em 9 de junho de 2013.

Não pensei que, chegando aos meus 60 anos de carreira, teria que começar a me preocupar com minha sobrevivência. Meus direitos autorais seriam minha aposentadoria quando eu parasse de fazer shows porque, quando se chega a uma certa idade, viagens já não são muito confortáveis. Nunca fui um compositor popular e minha integridade musical sempre se manteve intacta. Jamais escrevi qualquer música para que fosse um hit, ou para seguir modismos e agradar a qualquer tribo. O que me guia e sempre me guiou foi a qualidade acima de tudo e uma coerência artística da qual não abro mão.

Pois bem, num país onde a classe média (aquela que consome e investe em cultura) está cada vez mais achatada e onde a venda de CDs e DVDs caiu vertiginosamente, sendo o marco da minha descrença com esse tipo de produto o fechamento da Modern Sound, não vejo saída a não ser receber meus direitos de execução pública, referentes ao que se toca em rádio e TV, música ao vivo, eventos, piano bar, elevador, avião, etc… Isso é uma constatação irrefutável, visto que a Universal Music – onde lancei meus 5 primeiros LPs, relançados no mundo todo em CD, menos no Brasil, e onde gravei clássicos como “Minha namorada””Coisa mais linda” etc… que também foram gravadas por Fagner, Caetano, e outros com uma visibilidade na mídia sempre maior que a minha – me deposita os direitos autorais relativos ao primeiro trimestre de 2013, no valor de R$ 13,32. E acabo de receber os direitos da Som Livre, também pelo trimestre, no valor de R$ 0,42.

Com o Ecad sendo alvo das comissões representadas por deputados que têm concessões de rádio e TV, e que têm por objetivo deixar de pagar a dívida de R$ 2.000.000.000,00 com a entidade, o que restará aos compositores em idade avançada que não conseguirem mais viajar fazendo shows? Espanto-me ao ver o site do MinC fazendo apologia ao livre conteúdo, com logomarca do Creative Commons estampada lá.

Conteúdo é criado por pessoas que precisam comer, morar, pagar plano de saúde, se vestir, se deslocar. Ou acham que conteúdo aparece sem esforço algum? Não me considero um autor esquecido como frisaram na mídia serem estes os que reclamam por não receberem seus direitos. Tão pouco sou contra o Ecad, já que nossa associações de autores é que o criaram para centralizar nossa arrecadação, conseguindo uma gestão mais eficiente.

Agora, uma comissão que não entende nada do assunto nos multa por formação de cartel. O único cartel que vejo no momento é o dos que se uniram, sob os auspícios de seus mandatos, para usurpar o direito do autor e poderem fazer uso indiscriminado de obras que foram criadas com suor. A única saída que vejo é que o governo institua uma aposentadoria especial, como complemento ao direito de autor, para os criadores que chegando a uma determinada idade sejam recompensados pelo seu valor e pelo reconhecimento internacional do Brasil através de suas obras, tais quais embaixadores do país. Quanto recebe um embaixador aposentado?

Fica aqui minha sugestão.

Carlos Lyra é compositor afiliado à Amar.

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