“A ingenuidade não é para amadores” por Marcelo Castello Branco

24 abr

Texto de Marcelo Castello Branco publicado originalmente no jornal O Globo em 23 de abril de 2015.

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A realidade é tóxica. O artista que vendia pouco no mundo fisico continua vendendo pouco na migração para o digital. Não tem milagre.

Falsas expectativas foram frustadas. A cauda longa perdeu seu rabo.

A degustação às vezes tem gosto amargo. A internet é uma maravilhosa ferramenta, não uma tábua de salvação. Uma coisa é promoção, outra é remuneração. Na prática, a teoria é outra. No mundo off-line o online é uma fronteira excitante, desafiadora, vertiginosamente frágil, enganosamente fácil.

Muitos artistas, mesmo que artisticamente brilhantes, infelizmente fracassam. Ou vivem reféns de sua própria e cada vez mais necessária autogestão de carreira, por sobrevivência e, às vezes, única opção. Sem saber ou sabendo que a única coisa que pode mudar drasticamente a sua vida é uma grande canção e tudo o que isso representa. Poucos triunfam. Sempre foi assim. Continua sendo assim. Lamento admitir.

Outras centenas de novos artistas apareceram, instantâneos, sem preocupação com a longevidade. Com novos códigos, algoritmos, hashtags, posts. Essa é a lei da selva, agora digital. Letal. Está tudo na rede, na roda.

A discussão sobre o validade do streaming e da maior transparência de pagamentos é mais que oportuna e necessária, mas tem que ser feita de forma construtiva, objetiva. Tem que envolver e comprometer todos os players do mercado. Que hoje são muitos, muito mais do que antes. O poder se distribuiu melhor que a renda. A inclusão digital precedeu a inclusão social.

A discussão tem que focar não no rancor, acusaçōes ou omissões que remetem ao passado, já sepultado em escombros de plásticos e práticas.

Todo agente da industria cultural merece e deve ser respeitado e dignamente remunerado, em nome de sua contínua criação e contribuição. O artista/intérprete dessa equação é a sua matéria-prima principal, seguido de perto do autor/editora e dos produtores fonográficos, hoje ou concentrados entre três grandes companhias multinacionais ou pulverizados entre independentes desbravadores e valentes. Mas surgiu um novo protagonista, me perdoem, muito mais importante que todos, uma multidão deles: Ladies and gentleman, com voces… O consumidor!

Tudo deve ser feito a partir deles e não para eles. Isso precisa ser entendido, decifrado, trabalhado. E não apenas tolerado. Administrado com a hipocrisia da resistência ou da impaciência. Ninguém fez essa leitura cruelmente dinâmica melhor do que as empresas de tecnologia. Conseguiram convencer loucos empreendedores a investir em suas propostas e podem subitamente e, na maioria das vezes, provisoriamente, valer muito. Tudo é questão de mera percepção. Mas perdem dinheiro consecutivamente e são deficitárias em sua aposta de travessia do deserto para chegar à um oásis que só a escala proporcionará. Em outras palavras, quando muitos consumidores, milhões e bilhões deles, adotarem seus servicos. Que nem água, ou como a conta de luz que chega a nossas casas. Neste momento, todos seremos melhores e mais justamente remunerados e toda essa a discussão será ainda mais importante, efetiva e menos abortiva.

Muitas delas já faliram no intento. Desapareceram da noite para o dia, senha de um mundo virtual ágíl, implacável. Quem se lembra do Myspace? Perdeu seu espaço para outras plataformas, foi abandonado sumariamente. O atraso do iTunes para chegar ao Brasil e sua insistência ou ineficiência em cobrar em dolar só para quem tem cartão de crédito internacional também represou e elitizou o crescimento do mercado digital.

O download já representa para o streaming o que o vinil foi para o cd. O tempo não para. O consumidor adotou um modelo de negócio e o que ele oferece generosamente: milhões de músicas pelo preço de dois ou tres cafezinhos.

Parece pouco, é pouco, mas é um começo. O pão nosso de cada dia. De hoje.

Muita gente e novas gerações viram, pela primeira vez, uma boa razão para abandonar a pirataria. É uma nova ótica meio sem ética. Perdemos gerações de consumidores na discussão de modelos de negócios inventivos, mas divorciados do desejo do consumidor. Parece que ainda não aprendemos, o coletivo da música não mostra a maturidade e a capacidade de discussão que o cinema e o mercado editorial parecem exibir, muito mais discretamente e com menos tutela pública.

As gravadoras são acusadas de não repartirem justamente suas receitas do mundo digital, novidade recente e ainda em processo de aperfeiçoamento constante. Acabam de ver, depois de um longo e tenebroso inverno, uma luz promissora no fim do túnel. Por terem tanto catálogo, por terem investido durante mais de um século em artistas e repertório, é consequente que tenham uma vantagem competitiva. Perderam muito dinheiro com a maioria dos artistas que investiram. Ganharam com poucos. E estes pagaram a conta de todos. A maior parte desse investimento demora anos para ser recuperada. Ou não, agonizam no prejuízo, sem choro nem vela. No ecosistema digital o fracasso é mais leve, mais educativo pelas métricas e megadatas que a experiência oferece. Mais simples e mais complexo.

Na defesa de seu capital, os Privaty Equity (Fundos de Investimento) de turno são muito mais cruéis na análise de seu dinheiro do que foram e são as empresas da industria cultural. Ali não tem paternalismo, nem fé, nem intuição. As margens de quem cria e produz são reduzidas a pó, sem dó. O famoso ROI (retorno sobre investimento) é ainda mais corrosivo.

De qualquer maneira o diálogo é o único atalho para não repetir erros e perder um tempo que não temos. Não temos mais o luxo de parir danos colaterais.

O mais positivo de toda esta discussão é a volta do artista para o olho do furacão.

Os craques da tecnologia e do capital financeiro viraram os artistas nesta revolução. Com todo o valor e mérito, são apenas um novo canal de distribuição.

O dono da voz e do conteúdo são outros. E estão condenados a se entenderem, pelo bem de todos. É o futuro do negócio. Chega de passado.

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